No ano de 1964, com o golpe militar, configurou-se a “contra-revolução burguesa”, como sabiamente descreve em sua vasta produção literária no campo da ciência política, o amigo sociólogo e professor, Florestan Fernandes. Por ser uns dos mais respeitados intelectuais da América-Latina, junto com outros, foram perseguidos, presos e, muitas vezes, torturados, aposentados e forçados a deixar nossa pátria. Estudantes, professores, intelectuais, jornalistas, políticos, compositores, artistas e outros profissionais tiveram que procurar outros países para continuar vivendo.
O expansionismo da repressão militar não teve limites, atingiu a todos. Os
golpistas arrasaram a intelectualidade brasileira, expulsaram cientistas,
destituíram reitores das Universidades, colocando interventores militares ou
entreguistas civis nessas instituições: O governo militar, preocupado com a imagem do Brasil no exterior que já era tido como país da tortura e da violação aos direitos humanos, graças à colaboração de entidades democráticas estrangeiras: Ongs, movimentos religiosos, partidos e políticos de esquerda, em conjunto com a atuação de exilados brasileiros. Criaram diversos meios de comunicação, jornais alternativos, reportagens ilustradas com fotos sobre as torturas, debate em rádios e televisões, como também palestras e cursos sobre o que estava ocorrendo em nosso país, ocasionando imensa repercussão no exterior e, naturalmente, no Brasil.
A imagem do Brasil era uma preocupação constante dos futuros golpistas que
queriam ter em suas mãos um instrumento capaz de conter ou ocultar a crise da
sociedade em todos os seus setores. Para isso, começou-se a articular a criação
de um órgão que divulgasse a imagem do Brasil em conformidade com os interesses
do Estado, como pode ser confirmado no documento escrito pelo primeiro
presidente da Embratur: A “contra-propaganda”, feita e divulgada no governo militar, desencadeada pela Embratur para mudar e amenizar a fama de país governado à base de uma ditadura fascista, objetivava formatar a imagem da mulher brasileira, cobiçada pelos seus atributos estéticos como a bunda, os seios e pela facilidade em namorá-la, e mostrar as delícias do carnaval e os conhecidos biquínis fio dental. Voltado para este aspecto, há um estudo sobre a imagem do Brasil no exterior, desenvolvido pela professora Rosana Bignami, em seu livro A Imagem do Brasil no Turismo. No ano de 1970, éramos recém-nascidos no campo do turismo profissional e acadêmico, somente em 1971, surgiu o primeiro curso de graduação, obviamente acoplado ao ufanismo do “milagre brasileiro”. Concomitante, as denúncias de torturas e assassinatos de presos políticos se intensificaram e, ao mesmo tempo, em conformidade com os militares do Brasil ame-o ou deixe-o, uma nova nação estava surgindo. Na verdade, um novo Brasil surgiu, entretanto, aprofundou-se a miséria, diminui o censo – critico dos alunos e dos professores, instalando a perseguição aos que pensavam diferentemente dos militares. Perdemos colegas de sala de aula que foram mortos por atuar junto à UNE; tivemos torturadores que foram promovidos, e aqueles que perderam seus empregos de torturadores no DOPS , em 1980, foram contratados pela FEBEM, na qual tivemos o privilégio, junto a defensores da democracia e na defesa dos direitos humanos, de demiti-los da entidade quando lá estava como presidente Maria Inês Bierrenbach. Porém, os fatos não ocorrem como se esperava, o turismo popular era odiado o denominado farofeiro. A elite sempre se comportou como entreguista; a classe média filha, do golpe de 1964, propõe uma política nacional de turismo voltada exclusivamente para o fluxo receptor de turistas estrangeiros. Para isso, foi criada a Embratur, com a finalidade de vender uma imagem de fetiche da realidade política, econômica e social do Brasil.
Em 2003, coadunando com a meta passada, o governo retoma sua intenção original,
transformando a Embratur num grande “Convención Bureau, acompanhado dos
cobiçados salários pagos aos funcionários dos recém criados escritórios
internacionais”. Na atualidade, o Brasil já possui quadros de pesquisadores que desenvolvem seus estudos contrapondo epistemologias diferentes. Esse embate, quando feito com civilidade e competência, favorece o entendimento dos saberes turístico. Demonstrando o quanto empiricamente erramos e acertamos, de uma coisa temos certeza, queremos nos tornar um país pólo mundial do turismo e, para isso, a produção teórica existente sobre o fenômeno demonstra que devemos ser audaciosos e repensar uma série de “dogmas” que atrelam o turista estrangeiro aos perfis moldados segundo o gosto das grandes redes hoteleiras estrangeiras. Quem sabe, devemos ousar e propor uma Política Nacional de Turismo que atenda e estimule o turismo interno, para, em paralelo, buscar o turismo receptivo, Made in Brasil? E não Made in Brazil.
Para isso se tornar realidade, necessitamos entender que a culinária nacional e
“o bem-receber”, ou seja, a hospitalidade brasileira e o processo histórico do
nosso país construíram-se em bases cosmopolitas e não necessitam de padrões de
vida importados segundo os interesses econômicos, materiais e simbólicos dos
estrangeiros. Pois, nós somos as síntese de várias culturas como registra o
imortal Darcy Ribeiro: Nesse sentido, lutemos para repensar um turismo que recupere nossas raízes culturais, gastronômicas, baseado em nossa idiossincrasia e que mostre para o mundo o jeito de ser brasileiro em sua histórica forma de hospitalidade. Enfrentemos os modismos importados, combatendo o estrangeirismo da forma de ser dos hotéis que possuem a leitura de que a hospitalidade tem que ser a mesma em todas as partes do mundo, numa globalização de um tipo de hospitalidade que se assume universal, mas que, sufoca a diversidade cultural, impondo uma cultura massificada, porque não dizer etnocentrista em que o turista estrangeiro se vê obrigado a consumir o estilo de vida Fast Food. Pensemos numa Política Nacional de Turismo, diferente da “existente”, cuja centralidade seja dada pelo turista nacional e não pelo estrangeiro. Para isso, há a necessidade de um conjunto de políticas públicas, destinado a todas as classes sociais, em que o Estado, associado-a a iniciativa privada, intervenha para que haja de fato oportunidades estimuladas e o direito garantido da prática do lazer e do turismo para a população brasileira. A política de turismo predominante que dá prioridade à captação de eventos internacionais, num país em que a miséria denuncia vários tipos de fome: saúde, habitação, trabalho, salário digno para o trabalhador, subnutrição, brasileiros que nunca viram o mar, nunca ficaram numa pousada ou hotel ou se quer nunca fizeram uma refeição num restaurante. Em um país, onde a classe política pleiteia aumento salarial, na qual um trabalhador que ganha o salário mínimo necessitaria trabalhar oito anos para obter o rendimento mensal de um político. Há um grande e lamentável engano na política de turismo brasileira, então, por que não começar por impormos nosso estilo de riqueza cultural? Que tal iniciar pelos hotéis que seguem as preferências do Lobby americano e europeu? Quem sabe, poderíamos iniciar por um “desmonte” no quarto de hotel, sim, por ele, quem sabe, pelo frigorbar? Lá há de tudo, igual aos serviços disponíveis em um hotel em Hong Cong ou em Miami: Coca-cola, Sprite, água mineral, pequenas garrafas de Wisky, chocolates multinacionais, batatas fritas, bolachas doces e salgadas. Por que não substituir por produtos brasileiros como:
• Cocadinha baiana; sucos de marca nacional; cural, doce de goiaba e de abóbora
com coco, doce-de-leite, goiabada, assaí, queijos branco e provolone, quindim
(quem resiste a um desses?). Água-de-coco gelada, rapadura, castanha-do-Pará,
caju assado, amendoim, biju-de-coco, banana, sorvete de frutas brasileiras,
pinhão, caipirinha, pamonha, vinho brasileiro, guaraná etc. • Na gastronomia, esse item é quase infinito: feijoada, acarajé, vatapá, churrasco, esfirra, baião-de-dois, farofa-de-paçoca, cuscus, comida mineira, torresmo, caldo de feijão, peixes de água doce, pudins, frutas tropicais, mandioca frita, bolinho de arroz, brigadeiro, pizza, pão de milho, carne de sol, licores de frutas, pastel, farofa etc. É obvio que um bom chefe de cozinha, com experiência, saberá preparar esses alimentos ao gosto do paladar do estrangeiro e do próprio brasileiro, pois somos um país continental, com diferentes e marcantes gostos regionais. Essa é nossa riqueza cultural gastronômica que deve ser sentida pelo estrangeiro. Comecemos pelo turismo do brasileiro, dêem condições para que o povo conheça seu país e se orgulhe de ser uma mescla de etnias que forma este imenso continente que se chama Brasil. Conseguimos teorizar, dentro das universidades, sobre o turismo como uma das necessidades básicas do homem, alcançamos produzir teorizações dentro de epistemologias diferentes e não temos de fato um turismo voltado para os brasileiros. Um fato pode ser constatado, ou a academia está sendo desprezada pelo Governo ou somos ainda imaturos para criar políticas públicas próprias que ousem ultrapassar o padrão globalizado da hospitalidade imposta pelos grandes grupos econômicos. As universidades públicas sofreram materialmente e intelectualmente, e as particulares caminharam para o mesmo jogo da inércia e desmotivação do aluno que não enxerga facilidade no mercado de trabalho. Acrescentando um quadro de professores mal remunerados, tudo isso cria um ciclo vicioso de desânimo, em que doutos sábios que administram ou são proprietários dos meios de produção das instituições educacionais, apelam para palestras de motivação aliadas ao tônico revigorante do modismo do empreendedorismo. As experiências, nesse campo, demonstram que o fator empreendedor depende da economia e políticas governamentais para que de fato tal premissa ocorra. Entretanto, num país em que os juros é um dos mais elevados do mundo, em que a economia está nas mãos das transnacionais, e no qual a Embratur caminha na contramão da história, o turismo tornou-se sinônimo de exclusão social. Novamente esquecemos do povo brasileiro, e o que é mais incrível, num país governado pelo Partido dos Trabalhadores. A quem devemos apelar, uma vez que a intelectualidade do turismo foi excluída em quase sua totalidade e os que lá estão, no governo, pouco podem fazer. Devemos pedir a volta do passado! Isso nunca, pois quem por ele passou sabe que a história não se repete, e conforme Karl Marx, quando isso ocorre, surge como comédia e/ou tragédia. A política do turismo no Brasil sempre se repetiu, portanto, a realidade que estamos vivendo, para uns é uma tragédia, enquanto para outros uma comédia, a diferença consiste apenas no estilo da peça teatral.
Bibliografia
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