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Maringá! Cidade de Paul e
Laura Lafargue -
Ago/03 |
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Entrevistando as pessoas que chegavam à cidade de Maringá pela rodoviária nova,
deparamos com um casal de turistas da história universal o médico cubano Paul
Lafargue e sua companheira Laura Marx, filha do pensador Karl Marx. Estavam
vindo da França com o objetivo de se estabelecerem em nossa cidade, ele
apresentava sinais de cansaço por ter saído da prisão de Saint-Pélagie a menos
de quatro dias e ela por ser filha de quem era, apesar de seu semblante,
demonstrar as marcas de uma mãe que havia perdido três filhos por culpa
exclusiva da falta de higiene nos hospitais e pela proibição absurda de usar
amas de leite. Estava radiante em conhecer o Departamento de Ciências Sociais da
Universidade Estadual de Maringá e encontrar os marxianos sobreviventes da queda
do muro. Imediatamente nos propomos a leva-los para a nossa casa, oferecendo a
hospitalidade dos comunistas e admiradores que os respeitavam pelo seu trabalho
de militante e de intelectual do lazer, turismo e do mundo do não trabalho.
Muito gentilmente recusaram o convite, preferindo um hotel, resolvemos leva-los
para o Bandeirantes pelo clima de nostalgia dos anos sessenta que o mesmo
apresenta aos hospedes. Ao nos aproximamos do hotel houve uma sensação de
familiaridade de nossos ilustres visitantes para com aquela estrutura,
comentaram que a arquitetura recordava a parte americanizada da cidade de
Santiago de Cuba na década de 60. Após conseguirmos as acomodações nos
despedimos e marcamos para conversarmos pela manhã para ajuda-los em sua nova
pátria.
De volta ao hotel, no dia posterior as nove da manhã, pudemos conversar e tomar
um excelente café com Laura e Paul e conversarmos mais longamente sobre tudo e
todos. De início elogiaram o verde da cidade, indagando se havia índios entre as
matas, pois comentaram que em seu livro "O direito à preguiça" escrito em 1880
fizeram uma citação ao Brasil, relatando os costumes de seus primeiros
habitantes. Em seguida perguntaram qual era a população da cidade, por mera
coincidência o jornal "o Diário" que estava a disposição dos hospedes estava em
nossa mesa e trazia em sua primeira pagina o resultado do censo 2000. Maringá
havia contabilizado 288.467 mil habitantes. Espantados perguntaram qual era o
numero e as condições das crianças e mulheres que trabalham nas fábricas,
campos, comercio e serviços da região. Respondi que as condições eram
semelhantes da Inglaterra do século XIX.
Em seguida perguntei a Laura sobre seu pai e com uma tonalidade de voz
nostálgica, ela me disse que o Mouro estava em plena atividade intelectual e
convivendo com suas doenças conhecidas por todos. Mas muito triste, por ter de
ouvir interpretações errôneas de suas obras e ver seu nome sendo usado pelos
social democratas com ares de comunistas. O que mais era preocupante para todos
da família Marx é que Mouro tinha sentido demasiado a morte de sua mulher.
Imediatamente, procurei mudar de assunto, e reforçar as conquistas intelectuais
de Marx. Quando perguntei sofre o manifesto comunista, ela me confidenciou que
esse texto de seu pai e Engels, foi objeto de extrema perturbação para no
cotidiano da família. Pois seus pais e suas irmãs sofreram a perseguição de
agentes do governo belga que permaneceram vigiando os passos da família até
surgir o pedido de expulsão. Laura comentou que Marx queria tomar satisfação com
policiais . Engels teve que interceder e depois de duas horas de discussão
conseguiu convencer Marx. Após tudo resolvido, Marx confidenciou a Engels que
iria dar uma bengalada na cabeça desses agentes. Engels, teve de ser duro com
Mouro e não se agüentando começou a dar largas gargalhadas. Todos nós acabamos
rindo do gigante de Trevéris e por conselho do General ( Engels ) resolvemos
deixar Bruxelas e fomos morar em Paris.
Saímos do hotel e fomos para o centro da cidade, Lafargue demonstrava enorme
interesse pela vida política em Maringá, perguntou-nos se o governo dos
trabalhadores iria criar uma estrutura autônoma para ativar o lazer entre os
trabalhadores. Eu lhe respondi que não, mas que o PT sempre foi um partido de
ouvir as bases e que não tomaria decisões de cima para baixo. Lafargue ainda se
ambientando no meio maringaense me interpelou, afirmando que tinha feito a
escolha correta para morar. Mais uma vez, demonstrava entusiasmo em viver em
Maringá.
Laura pensava em dar aulas de Francês e Inglês e ser professora da UEM, mas
quando comentamos sobre o salário e a pratica da delação que havia sido
implantada no interior da academia por parte de alguns grupos políticos,
resolveu buscar novas saídas. Paul pensava em poder tornar seu sonho realidade,
isto é, desenvolver junto aos trabalhadores um programa de lazer e turismo em
que o município por meio de sua secretária de turismo estimula-se a criação de
programas em parceria com as industrias.
Comentei com Paul e Laura sobre os cadernos de Paris escritos por Marx em 1844
que são um marco para o estudo do lazer e do tempo livre, um texto pouco usado.
Imediatamente Paul afirmou que esse foi um material fundamental para ele poder
escrever "O Direito a preguiça". E completou sua idéia pedindo, para conversar
com prefeito de Maringá. Será possível? respondi para ele, que iríamos tentar
agendar para a semana.
Os índios das tribos belicosas do Brasil matam seus inválidos e seus velhos;
demonstram sua amizade pelo atingido pondo fim a uma vida que não se alegra mais
com os combates, festas e andanças ... ( Paul Lafargue. O direito à preguiça.
São Paulo, editora Káiros, 1980. P. 26.
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