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Necessidades Especiais e Turismo: Desafio e Busca de Qualidade - Jun/06 |
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Este artigo
pretende discutir questões voltadas aos deficientes visuais e a atividade
turística específica para este público, as exigências e particularidades
próprias dos cegos e a intrínseca necessidade do lazer presente em todo ser
humano que é maximizada nos portadores de necessidades especiais, como é o caso
dos cegos, por experimentarem maiores pressões e privações no cotidiano.
Inicialmente, para compreensão efetiva do assunto abordado, cabe explorar alguns
conceitos de turismo que, segundo FUSTER (1999, p. 11), “ é, de um lado,
conjunto de turistas, de outro, os fenômenos e as relações que essa massa produz
em conseqüência de suas viagens”.
Já para McINTOSCH (Apud BENI, 2001, p. 36) “Turismo pode ser definido como a
ciência, a arte e a atividade de atrair e transportar visitantes alojá-los e
cortesmente satisfazer suas necessidades e desejos”.
Entretanto, BENI (Apud BISSOLI, 2000, p. 23), afirma que ”o fenômeno turismo é
tão grande e complexo que é praticamente impossível expressá-lo corretamente;
ocorre em diferentes campos de estudo, em que é explicado conforme diferentes
correntes de pensamento e verificado em vários contextos da realidade social”.
A definição aceita do ponto de vista formal é aquela dada pela OMT – Organização
Mundial do Turismo: “soma de relações e de serviços de um câmbio de residência
temporário e voluntário motivado por razões alheias a negócios ou
profissionais”.
Ainda conceituando, TRIGO (1999, p. 12) diz que: “... uma atividade humana
intencional que serve como meio de comunicação e como elo de interação entre
povos, tanto dentro como fora de um país. Envolve o deslocamento temporário de
pessoas para outras regiões ou países visando a satisfação de outras
necessidades que não a de atividades remuneradas.”
É importante também considerar o que defende KRIPPENDORF (In: OLIVEIRA, 2002, p.
45) “... o turismo não constitui um mundo a parte que obedece a leis próprias,
mas uma conseqüência e, simultaneamente, um componente do sistema social
industrial, da organização dos seres humanos e da civilização moderna”. É, pois,
parte integrante do sistema social.
Inexato e complexo por envolver diversos setores de atividades como as citadas,
isto é, viagens, hospedagem, alimentação e lazer, o turismo necessita de
potenciais naturais ou artificiais – atrativos – para o desenvolvimento dos
produtos turísticos. Ao planejar e realizar a atividade turística de uma região
deve-se levar em conta a sustentabilidade das ações para valorização e
conservação do patrimônio turístico pensando nas gerações futuras e evitando a
degradação, destruição e até extinção de paisagens, faunas, floras e outros bens
componentes da oferta turística local. Em uma visão idealizada e esperançosa,
ANDRADE (2002, p. 99) escreve:
Produtivo e dinâmico, o turismo se aproveita, de maneira intensiva e permanente,
de todo o potencial dos recursos naturais sem esgotá-los, e também dos recursos
e riquezas criados, propiciando todos os meios possíveis para conservá-los e
valorizá-los tanto quanto possível (...)
O turismo gera empregos, capta divisas e ajuda a população a resolver grande
parte de seus problemas econômicos. No entanto, sem planejamento, não será uma
atividade sustentável. O turismo sustentável ajuda na preservação do meio
ambiente, melhorando as condições de vida da população. Como afirma RUSCHMANN
(2000, p. 70), é sustentável quando visto como “a perfeita triangulação entre as
destinações (seus hábitos e habitantes), os turistas e os prestadores de
facilidades para os visitantes”. A autora acrescenta que na atualidade, o
turismo sustentável “procura adequar os interesses de cada um dos parceiros do
triângulo, minimizando as tensões e buscando um desenvolvimento em longo prazo,
pelo equilíbrio entre o crescimento econômico e as necessidades de conservação
do meio ambiente”. Mas a viabilização desse desenvolvimento sustentável carece
de políticas específicas e de maior interesse de todos os envolvidos.
É interessante destacar ainda que a atividade turística bem estruturada traz
desenvolvimentos de ordens econômica e social, tornando núcleos enfraquecidos em
produtivos e trazendo lucratividade em pouco tempo (ANDRADE, 2002)
Para uma melhor compreensão e aprofundando um pouco mais sobre a natureza e
estrutura da oferta turística, eis algumas de suas características particulares:
• Não admite estocagem ou reserva;
• seus recursos são estáveis e consumidos no próprio receptivo em que são
produzidos e comercializados;
• seus recursos são estáticos: não podem ser transportados em seu todo ou em
partes significativas, sem alterações no próprio conjunto do potencial;
• os recursos são imóveis: os turistas é que se deslocam para
usufruí-los.(ANDRADE, 2002, p. 101)
Finalizando esta exposição sobre turismo, atividade e oferta turística é
importante enfatizar que se houver o cuidado necessário com a utilização de um
planejamento racional e sustentável para o desenvolvimento desta atividade,
resultados positivos são alcançados para todas as partes: comunidade receptora,
profissionais do turismo e, é claro, os turistas.
Focando na abordagem específica a ser tratada, Turismo para Deficientes Visuais,
cabe compreender também alguns esclarecimentos sobre cegueira e visão subnormal.
Segundo o informativo O que é Deficiência Visual da Associação dos Deficientes
Visuais do Paraná – ADEVIPAR, portador de deficiência visual é toda pessoa que
apresenta CEGUEIRA ou VISÃO SUBNORMAL – visão reduzida – em ambos os olhos.
CEGUEIRA é a perda total ou resíduo mínimo de visão que leva o indivíduo a
necessitar de equipamentos específicos para o desenvolvimento educacional e
integração social.
A pessoa com VISÃO SUBNORMAL é aquela que possui resíduo visual que a
possibilita ler impressos a tinta, de forma ampliada ou com o uso de
equipamentos específicos. Tanto o portador de cegueira total como o de visão
subnormal carecem de recursos didáticos especiais para garantir suas
possibilidades de desenvolvimento e participação social.
Ao contrário de algumas teorias e definições, a deficiência visual não precisa
ser necessariamente considerada de ordem física mas sim sensorial uma vez que
afeta um dos 5 órgãos dos sentidos – visão, audição, tato, olfato e paladar.
Assim como escreve OLIVEIRA:
“No caso particular da cegueira, prefiro considerá-la uma deficiência do tipo
sensorial – distinguindo-a assim da deficiência física, com a qual a cegueira é
muitas vezes identificada, mas que convém mais ao homem paraplégico, por
exemplo.” (OLIVEIRA, 2002, p. 10)
Talvez a associação de cego com a expressão deficiente físico seja a responsável
pelo preconceito que faz do homem que não vê ser, muitas vezes, vítima da
suposição de que a cegueira faz dele um ser totalmente inválido. (OLIVEIRA,
2002)
Cabe aqui destacar que “a privação de uma faculdade fisiológica não basta para
definir um indivíduo (...) na vida, de forma geral, o estado de visão é apenas
um dos muitos elementos a serem tidos em conta, no que tange ao conhecimento de
um indivíduo”. (OLIVEIRA, 2002, p.12)
Dada a semelhança existente entre a situação da pessoa cega e a da que tem visão
subnormal, ambas são incluídas no mesmo contexto com frequência em prol da maior
agilidade do discurso. Assim, são usados de forma genérica os conceitos de
"cegueira" e de "cego", mais acessíveis a todos, desde que isso não comprometa a
precisão semântica requerida pelo contexto. (OLIVEIRA, 2002)
A cegueira dificilmente pode ser disfarçada ou passar despercebida, pois é uma
deficiência que compromete também a habilidade motora, o que a torna rapidamente
perceptível ao que vê.
“A cegueira evidencia-se facilmente na prática quotidiana. Através dos
movimentos do cego ela se mostra aos olhos de quem vê, pois a ausência de visão
compromete a habilidade motora: o homem não vidente caminha e move-se com certo
embaraço. Pode-se ver que um homem é cego ao acompanhá-lo com os olhos enquanto
ele se move.” Referência e deixar menor.
A visão é o sentido que nos possibilita fazer as diferenciações entre as pessoas
e entre os objetos, na sua ausência discernir as coisas se torna uma tarefa
muito mais complicada e ainda pode ser responsável por causar situações de
embaraço. Fica também restrito o reconhecimento de valor dos objetos.
“Quanto mais valioso o órgão, mais problemática é a sua ausência. O drama da
cegueira consiste fundamentalmente na incapacidade de estabelecer as devidas
diferenças visíveis entre os seres. Para o cego, o mundo visível tende a
igualar-se: via de regra, é o mesmo estar diante de um quadro de Botticelli ou
de uma tela em branco.” (OLIVEIRA, 2002, p. 41)
Ainda baseando-se nos estudo do mesmo autor, constata-se que o indivíduo privado
da visão busca nos outros órgãos de sentido – audição, tato, olfato – as
compensações para orientação e reconhecimento do mundo.
“No caso da pessoa cega, o olfato tende a desempenhar função importante, na
dinâmica de orientação. É comum que o cego diferencie o ambiente a partir dos
odores característicos que o circundam: conhece a sapataria pelo cheiro de
couro, a farmácia pelo de medicamento e assim por diante.” (OLIVEIRA, 2002, p.
198)
No que diz respeito ao sentido táctil temos que o alcance táctil é bastante
limitado pois as mãos podem tocar um chapéu e perceber convenientemente suas
formas, seu detalhamento e sua composição integral. O que já não ocorre com uma
montanha, por exemplo, ou com estruturas tridimensionais muito pequenas e
complexas nos detalhes. Existem ainda objetos que podem ser vistos, mas que
estão absolutamente fora do alcance das mãos humanas como a Lua. Alguns
fenômenos físicos que, sob contato direto ameaçam a nossa sobrevivência ou o
bem-estar físico como o fogo, para a percepção táctil também se torna inviável.
Não obstante, os olhos os vêem sem risco para o nosso corpo.
“As mãos percebem os contornos e texturas de objetos tridimensionais que tenham
dimensões compatíveis com o alcance táctil: o galho de uma árvore pode ser
acessível ao tato, permitindo ao cego usufruir de sua eventual beleza. Mas isso
dificilmente se dá com a árvore inteira, faltando ao cego a possibilidade de
apreensão do todo. É a mesma situação que teríamos ao comparar uma pedra com uma
montanha. No mundo tridimensional, comumente o que interessa esteticamente aos
olhos não encontra correspondência no tato. A beleza de um aposento bem
mobiliado é algo que só os olhos podem perceber com propriedade. Por mais
apurado que seja o tato, a percepção precisa de cada móvel ou objeto isolado não
confere ao homem cego a idéia de conjunto – e é dessa idéia que emerge a beleza
do ambiente. (...) O tato pode permitir ao cego o conhecimento satisfatório do
que seja um chapéu, uma bengala ou um travesseiro. Nunca, porém, o tato concede
ao cego a percepção adequada do que seja um avião, um poste telefônico ou uma
nuvem.” (OLIVEIRA, 2002, p.25 e 246)
É importante, quando se trata de cegueira, considerar a informação de que, para
o cego, 75% das impressões sensórias são transmitidas ao cérebro por via
auditiva enquanto que para o vidente, no mínimo 80% desse mesmo potencial
sensório são percebidos e endereçados ao cérebro através dos olhos. São
estatísticas que defendem o papel dos olhos e dos ouvidos como sentidos nobres.
(OLIVEIRA, 2002)
Existe um fator determinante relacionado ao aprendizado da pessoa cega que é a
análise relacionada aos indivíduos que nasceram cegos e aos que ficaram cegos.
Com relação a isso, OLIVEIRA, apresenta:
“As restrições sensórias impostas pela deficiência visual dependem do modo como
que esta se manifesta. Em geral, as impressões visuais registram-se na memória
apenas a partir dos seis anos de idade, aproximadamente; se uma pessoa torna-se
cega antes dessa faixa etária, na prática, é como se tivesse nascido sem ver.”
(OLIVEIRA, 2002, p. 47)
Vale ainda destacar algo sobre as terminologias usadas quando se trabalha com
deficientes visuais pois Segundo OLIVEIRA, a imprecisão terminológica, ainda
hoje, não resolvida é sinal do pouco interesse por parte da sociedade em
compreender e aceitar a deficiência. Oliveira escreve ainda que os próprios
termos incapacidade, invalidez, deficiência, já trazem consigo uma noção
preconceituosa e confusa acerca do assunto. Sendo assim se faz necessário
esclarecer que o termo cego, ao contrário do que pensam algumas pessoas, não é
ofensiva, pejorativa ou inadequada. Pode ser usado com naturalidade como
expressão de uma característica comum. Já a palavra vidente, usada neste ensaio,
relaciona-se sempre com o indivíduo que vê normalmente com ou sem ajuda de
lentes.
Em uma exploração sutil sobre as motivações que levam as pessoas a viajar temos
que:
“O ser humano está sempre à procura de um ninho. (...) A moradia é um quarto, um
apartamento, uma casa, um pequeno jardim, um pequeno pátio, um bairro, uma
aldeia, uma cidade. A moradia é dormir, comer, é a família, os contatos sociais,
os lazeres (...) A habitação reveste-se de importância social. (...) O lar
adquire uma importância cada vez maior pois é onde nos libertamos dor fardos. É
o contrapeso ao estresse crescente provocado pela vida moderna. Mas ele não
consegue também satisfazer todos os anseios e desejos. Pelo contrário, as
condições da habitação continuam a se degradar em vez de melhorar.” (KRIPPENDORF,
2000, p. 112)
Sob esta ótica, constatando que a habitação e o lar não estão conseguindo
satisfazer todos os anseios e desejos das pessoas e reconhecendo a necessidade
do contrapeso ao estresse provocado pela vida moderna é que a idéia da viagem
aparece como ferramenta auxiliar para que os indivíduos possam desfrutar da
possibilidade de liberarem seus fardos.
Viajar é descansar, refazer-se (KRIPPENDORF, 2000) – reconstituição das forças
físicas e psíquicas consumidas pela vida cotidiana. “O lazer e as férias parecem
mais necessários do que nunca para proporcionar uma boa saúde.” (KRIPPENDORF,
2000, p. 46)
Não é preciso muito esforço para perceber que atualmente viajar é saudável! É o
que faz o ser humano recobrar as forças para conseguir continuar com suas
atividades de rotina, do cotidiano, do dia-a-dia, que se repetem
incansavelmente.
Se viajar já se tornou necessidade para qualquer indivíduo, focando no objeto
estudado mais profundamente, o deficiente visual, e supondo a existência de uma
escala de nível de necessidade de viajar, provavelmente os cegos estariam entre
os que mais precisam desse remédio.
“Aos cegos a pressão do cotidiano é ainda maior pois em relação aos indivíduos
de visão normal podem surgir sentimentos de comparação e, com estes, a
desqualificação, o isolamento, a solidão, a inveja... (...) Tudo parece
convidá-lo a trazer à tona a questão de fazer face a um mundo cuja tônica é dada
pelos padrões e condicionamentos ditados, especialmente, pelos videntes.” (AMIRALIAN,
1997, p.... )
Segundo Krippendorf, viajar é compensar e integrar-se socialmente. Esta é a
eterna busca de qualquer pessoa portadora de necessidade especial: integrar-se
socialmente. Viajar é então uma atividade – ferramenta de integração social –
que seguramente trará benefícios a qualquer indivíduo e, particularmente, aos
portadores de deficiência visual de maneira mais marcante e significativa pois
oportunizará o integrar-se na sociedade.
Até mesmo porque a Organização das Nações Unidas destaca a necessidade de que,
em todos os países, sejam dadas às pessoas deficientes as mesmas oportunidades
que têm os demais cidadãos de desfrutar da dinâmica econômica e social.
Krippendorf escreve ainda que viajar é comunicar-se, que durante as férias
deseja-se estabelecer contato com outras pessoas. (KRIPPENDORF, 2000, p. 47)
Desta forma, com pessoas abertas a novos contatos, surge novamente a
oportunidade de integração social ao cego que terá maior facilidade para a
construção de novos vínculos de amizade e para a troca de experiências assim
como é comum a qualquer indivíduo. Vale sempre lembrar que o contato
estabelecido com um indivíduo portador de necessidades especiais – acuidade
visual é baseado mais em outros sentidos corporais como a audição e o tato
respeitando-se, obviamente, a intimidade, liberdade e cultura de cada indivíduo.
Krippendorf diz ainda que viajar é ser livre e autônomo. (KRIPPENDORF, 2000, p.
49) Raras são as situações em que o portador de necessidades especiais –
acuidade visual sente-se livre e autônomo. Isso se dá pela dependência causada
pela própria deficiência. Sendo assim, se a viagem oportuniza e favorece essa
condição e sentimentos – liberdade e autonomia – então para o cego ela é, no
mínimo, muito indicada.
“Depois do ‘direito às férias’, o ‘direito à viagem’ se tornou uma reivindicação
sociopolítica: todas as camadas sociais devem ter acesso à mesma.” (KRIPPENDORF,
2000, p. 38) De acordo com essa afirmação, as pessoas portadoras de necessidades
especiais como os cegos não apresentam nada que justifique sua exceção à essa
regra ou direito.
“Pressionadas por necessidades diversas de origens interna e externa e em
diferentes graus de intensidade, as pessoas buscam (nas viagens) benefícios que
atendam às privações experimentadas, que representem compensação aos fatores de
cuja falta se ressentem.” (VAZ, 1999, p. 42)
Gil Nuno Vaz fala em “privações experimentadas” que é uma expressão extrema e
até intrinsecamente pertinente ao objeto de estudo escolhido, os cegos. A este
ponto vem o questionamento: Será possível a existência de uma privação maior a
uma pessoa do que a da visão?
Em um mundo e em uma época em que a maioria dos estímulos de aprendizado são
visuais como nos diz João Vicente Ganzarolli de Oliveira em sua obra Do
essencial invisível: arte e beleza entre os cegos: “Nesse processo de aprender,
o sentido visual desempenha papel central. É o mais útil para a importantíssima
prática da imitação, responsável direta pela aquisição do nosso acervo cognitivo
durante os primeiros anos de vida.” Sem falar no marketing e na publicidade que
nos bombardeiam com incontáveis imagens, cores, desenhos e figuras, estímulos
estes ignorados ou pouco aproveitados pelos que sofrem de alguma deficiência
visual séria.
“... a televisão, os outdoors, a vitrine... Vivemos hoje mergulhados em um mundo
de cores e sombras. E os sujeitos cegos, como ficam neste mundo
predominantemente visual?” (AMIRALIAN, 1997, p. nnn) A questão fica ainda mais
séria quando pensamos nos padrões atuais de beleza fundamentados essencialmente
pela visão como nos explica OLIVEIRA: “Para a Estética, ramo da Filosofia que
estuda a beleza, a cegueira é a mais importante de todas as deficiências. Isso
porque se choca com o privilégio natural que o homem confere ao olhar, sempre
que se fala da beleza: o belo é, em grande parte, um assunto visual.” (OLIVEIRA,
2002, p. nn)
Existe ainda a questão da etiqueta e dos bons modos. “ ... nos hábitos
alimentares, o não-vidente costuma enfrentar problemas que inexistem para o
homem que vê. Via de regra, é difícil para o cego aprender a portar-se à mesa de
modo aceitável perante a sociedade. “ (OLIVEIRA, 2002, p. nn)
Um outro agravante é pensar nas questões relacionadas à beleza feminina. Sobre
este assunto OLIVEIRA escreve:
“É socialmente legítimo que uma mulher se empenhe em atrair os olhares de um
homem, da mesma forma como é permitido a um homem admirar publicamente o que a
mulher exibe da sua pessoa. Nisto reside a dupla inferioridade do cego: ele não
pode admirar visualmente uma mulher e, em decorrência, perde o interesse para
ela; só poderia fazê-lo apalpando-a, mas o ato de apalpar é repelido como
anti-social (sobretudo em público).” (OLIVEIRA, 2002, p. nn)
A audição e o tato são as duas formas mais eficientes na percepção do mundo
externo pelo deficiente visual e substituem, em parte, a própria visão. Mas,
obviamente, apresenta diversas limitações e problemas ligados, por exemplo, ao
que podemos chamar alcance táctil.
“As mãos percebem os contornos e texturas de objetos tridimensionais que tenham
dimensões compatíveis com o alcance táctil: o galho de uma árvore pode ser
acessível ao tato, permitindo ao cego usufruir de sua eventual beleza. Mas isso
dificilmente já não se dá com a árvore inteira, faltando ao cego a possibilidade
de apreensão do todo. (...) No mundo tridimensional, comumente o que interessa
esteticamente aos olhos não encontra correspondência no tato. (...) As mãos
podem tocar um chapéu e perceber-lhe convenientemente as formas no seu
detalhamento e na sua composição integral. Mas isso já não ocorre quando se
trata de uma montanha ou de estruturas tridimensionais muito pequenas e
complexas nos detalhes (...). Isso sem falar em objetos que podem ser vistos,
mas que estão absolutamente fora do alcance das mãos humanas: a Lua, por
exemplo. Por depender do contato direto, a percepção táctil também se torna
inviável diante de certas realidades que ameaçam a nossa sobrevivência ou
bem-estar físico. É o que impede o cego de conhecer os movimentos das labaredas
de um fogueira. Não obstante os olhos a vêem sem risco para o nosso corpo.”
(OLIVEIRA, 2002, p. nn)
É normal que com tantas limitações e peculiaridades o cego acabe sendo
considerado diferente e estigmatizar o “diferente é uma atitude comum ao longo
da história.” (OLIVEIRA, 2002, p. nn)
Se a busca por viajar se dá para atender às privações experimentadas, então os
deficientes têm mais motivos que todas as pessoas para terem opções de roteiros
turísticos, pois a falta que ressentem não é só de descanso ou momentos de lazer
mas também de um órgão de sentido tão importante à vida e ao desempenhar de
praticamente todas as atividades humanas. É a falta de poderem levar uma vida
socialmente aceita, é a falta de poderem estar inseridos na sociedades sem
estigmas ou sem serem considerados diferentes. De poderem utilizar os outros
sentidos que lhe restam, a exemplo do tato, sem preconceitos ou julgamentos.
Mais que falta de descanso, essas são suas faltas, essas são as privações
experimentadas pelos cegos.
Por outro lado, considerando-se o papel preponderante da visão nas relações com
o meio, existe a tendência de conceder à visão um valor primordial e, consciente
ou inconscientemente, dar à sua ausência conotações que ultrapassam sua real
significação. A mente do vidente identifica o não-ver com a incompreensão,
incompetência, ou incapacidade de compreender. E tem no cego um ser misterioso,
indecifrável ou pobre de emoções e desejos. (AMIRALIAN, 1997, p. 35)
Mais do que simplesmente a fuga do cotidiano, as férias e o lazer experimentados
longe de casa podem se transformar realmente num campo de aprendizado e de
experiências, propiciando a oportunidade de enriquecimento exterior, de
exercício da liberdade, de compreensão e solidariedade. (KRIPPENDORF, 2000, p.
nn) Compreensão e solidariedade amplamente possíveis de se realizar em um
ambiente potencializado pela presença dos deficientes que, na maioria das vezes,
possuem a dependência do auxílio de terceiros para a realização de diversas
atividades.
Uma outra proposta da participação dos cegos na atividade turística que pode
surpreender a grande maioria das pessoas é como guia turístico. Uma
possibilidade de aproveitar do incrível senso de direção dos cegos
potencializado justamente pela ausência da visão. “Quando uma função está
impedida outras vêm em seu socorro, preenchendo as lacunas por meio da
elasticidade, da plasticidade e da expressividade dos movimentos da vida.” (AMIRALIAN,
1997, p. nn) Já existem registros desse tipo de trabalho. Em Fortaleza o
Instituto de Cegos em parceria com o Sebrae trabalha em cursos de capacitação
essa iniciativa.
É sempre válido lembrar que quando se propõe um trabalho com um público-alvo tão
particular, deve-se ter em mente que a comparação dos sujeitos cegos com os
videntes é no mínimo inadequada (AMIRALIAN, 1997, p. nn)
Fundamentando-se no conceito de Marketing de que um grupo de consumidores com
características e preferências homogêneas formam um segmento de mercado (VAZ,
1999, p. 42), pode-se afirmar que os portadores de necessidades especiais –
acuidade visual formam uma segmentação a ser estudada quanto aos seus
interesses, quanto às suas buscas por determinados benefícios e, especialmente,
quanto às adaptações a serem feitas nas infra-estruturas dos locais para que se
tornem receptivos também a este público. Porém é de vital importância destacar
que “não existe um tipo de característica de personalidade cega, pois as pessoas
cegas, assim como as que vêem, apresentam todo tipo de personalidade possível.
Cada pessoa é única em si mesma.” (AMIRALIAN, 1997, p. nn)
Segundo dados da Organização das Nações Unidas, 10% da população mundial porta
algum tipo de deficiência, o que nos revela um segmento gigantesco de pessoas
ávidas por terem suas necessidades atendidas em todas as áreas, inclusive na
parte relacionada a lazer e viagens.
É válido ainda considerar que é mais um nicho de mercado em potencial a ser
desenvolvido fazendo crescer e diversificar ainda mais o imenso leque de
possibilidades que é o do mercado do turismo.
Constatada a necessidade de explorar o turismo também para o público cego, a
questão é: como fazê-lo? Onde levar um grupo de deficientes visuais? Que
atividades desenvolver? Quais são os ajustes de infra-estruturas necessários?
Como prova de que o desafio proposto é possível de se realizar, eis exemplos bem
sucedidos de experiências envolvendo cegos e turismo numa relação mais que
harmoniosa:
Na região italiana da Emilia Romagna o Corpo Florestal do Estado já desenvolve
um trabalho com pequenas excursões entre bosques com percursos didáticos
especialmente preparados aos cegos. Percebe-se aqui como é essencial o
envolvimento do Poder Público em âmbitos de ordem legal e financeira. Também é
importante frisar a menção feita aos “percursos didáticos especialmente
preparados”, neste trecho confirmamos a necessidade de adaptações da
infra-estrutura justificado pelo que já citamos de OLIEIRA sobre o
comprometimento da habilidade motora que acomete os cegos pela ausência da
visão.
Já na região de Levanto e Riomaggiore, os centros diving em parceria com o
presidente do Parque Franco Bonanini, que já busca modelos de peixes e plantas
em formas tridimensionais para serem perceptíveis ao tato, realizam um trabalho
ainda mais ousado dedicado aos cegos: o mergulho. Novamente percebemos
adaptações quando se relata a busca por peixes e plantas mais perceptíveis ao
tato, até mesmo pelo que afirma OLIVEIRA (2002, p. 25) “As mãos percebem os
contornos e texturas de objetos tridimensionais que tenham dimensões compatíveis
com o alcance táctil.”
A imersão das pessoas com dificuldades visuais acontece com instrutores
capacitados a este tipo de trabalho que acompanha cada indivíduo ao toque direto
de algas, esponjas e tantas outras espécies marinhas da reserva. São utilizados
equipamentos especiais como as máscaras que permitem um constante contato com os
visitantes cegos. Também dedicado aos turistas cegos foi desenvolvido um CD
especializado com a narração de um guia indicando barreiras arquitetônicas
vizinhas a monumentos e museus. Também vem contada a história local, e descritas
as particularidades arquitetônicas mais expressivas. Afinal já se sabe que, para
o deficiente visual, 75% das impressões sensórias são transmitidas ao cérebro
por via auditiva (OLIVEIRA, 2002).
Pretendeu-se que este trabalho proporcionasse, de forma objetiva e
esclarecedora, uma familiarização com as principais características a se
observar no trabalho da atividade turística com os deficientes visuais.
Salientando as exigências causadas pela própria deficiência sendo que estas
particularidades não são impedimentos para a prática da atividade turística. Uma
outra importante finalidade desta apresentação é a de incentivar a exploração
desse mercado tão amplo e dinâmico que é o Turismo envolvendo os diversos
estratos da sociedade promovendo a inclusão social no caso específico dos cegos.
Fazer com que as autoridades atentem para este casamento interessante entre
cegos e turismo é, sem dúvida, um outro desafiador objetivo deste ensaio.
Assim, à medida que a sociedade e as autoridades vão criando intimidade com a
nova proposta, percebendo e buscando sua viabilidade e seus resultados efetivos
e positivos para todos os participantes da atividade turística, os deficientes
visuais estão mais próximos de poder desfrutar de diversas opções de atividades
turísticas adaptadas às suas condições tendo mais uma oportunidade de inclusão
social e de satisfação das suas necessidades outrora menos consideradas.
Bibliografia
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ARRILAGA, José Ignácio de. Introdução ao Estudo do Turismo. Rio de Janeiro:
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VAZ, Gil Nuno. Marketing Turístico. São Paulo: Pioneira, 1999.
http://www.benessere.com/viaggi/itinerari/percorsi_disabili.htm
http://www.aitr.org/news.php?news_id=20&start=0&category_id=&parent_id=0&arcyear=&arcmonth
Autora:
Isabela Minatel Bassi
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