Os Efeitos da Sazonalidade na Exploração do Fenômeno Turístico - Jan/05

Voltar

Entre as diversas formas de se fomentar a economia de um país podemos destacar o turismo como uma das atividades que mais tem crescido nos últimos anos. Muitas destinações foram criadas para atender a demanda cada vez mais crescente, a qual vem se consolidando em diversos países.

O turismo tem um papel muito importante na transformação dessas destinações, destes espaços de consumo especializados para o turismo, onde estão sendo explorados diversos outros setores acessórios para a atividade como padarias, bares, restaurantes, serviços de limpeza e segurança, dentre muitos outros. É, por necessidade, um segmento da economia que se fortalece e que leva consigo os demais setores envolvidos a crescer juntamente, desenvolvimento uma localidade e as atividades econômicas ditas acessórias do turismo.

Paralelo a este crescimento, o espaço se desfigura e se reconstrói, fomentando a reordenação do lugar como forma de otimizar os agentes que lidam com o turismo. A este respeito CARLOS (2001: 40) afirma que: “da observação da paisagem urbana depreendem-se dois elementos fundamentais: o primeiro diz respeito ao ‘espaço construído’, imobilizado nas construções; e o segundo diz respeito ao movimento da vida”.

O turismo reordena a paisagem e influencia os atores locais a se reordenarem juntamente, atendendo aos anseios e expectativas que são forjadas pelo empresariado em detrimento da opinião dos habitantes locais. Este não é um aspecto isolado. LEMOS (1999: 238) acrescenta que na cidade de São Paulo, região do ABCD paulista:
“as transformações espaciais sofridas nestas últimas décadas [...] tanto na cidade como na área metropolitana, estão deixando paisagens desoladas de enormes prédios vazios a procura de novas atividades”.

Sob este aspecto, a sazonalidade constante do fluxo turístico propiciou, em parte, a atual circunstância.
SILVA (1999: 166), nesse sentido, utiliza as palavras de Mullins quando afirma que “os centros turísticos representam uma nova e extraordinária forma de urbanização porque são cidades construídas única e exclusivamente para o consumo”.

Mais adiante, SILVA (1999: 169) considera que uma cidade turística deve ser entendida por uma dinâmica particular onde “o consumo e a utilização dos bens e serviços turísticos [expressa] uma tendência à periferização”. Este conceito tem, por exemplo, a cidade do Cairo, no Egito, onde o consumo dos espaços constituídos turísticos são vislumbrados por empresários e pela população local. Estabeleceu-se, assim, um conflito de interesses onde o turismo no local fez crescer o número de favelas e de marginalizados, estes com o intuito de buscar a sobrevivência por meio dos recursos gerados pelo turismo. A tentativa dos órgãos públicos locais de levar essas comunidades para outras localidades gerou tensões no próprio espaço turístico, onde EVANS (2001: 249) afirma que “o Platô de Gizé está lutando com as diferentes demandas feitas sobre ele [comprometendo] a sobrevivência a longo prazo das Pirâmides e da Esfinge”.

Apesar de ser um forte gerador de benesses para a comunidade e a economia em geral, o turismo também pode ser muito frágil e tímido ante as situações e momentos de crise. Os altos e baixos das crises econômicas pode significar o adiamento do crescimento do turismo. As crises internacionais, a alta do dólar como moeda internacional, as variações climáticas, as catástrofes naturais. Vários podem ser os agentes externos ou externalidades negativas, este último que de acordo com VICECONTI (2000), dificulta ou mesmo torna o turismo uma atividade estagnada.

Estes intervalos na exploração do turismo (onde a atividade se revessa em momentos de desaceleração do crescimento, estagnação e lenta recuperação) constituem-se num verdadeiro tratamento de choque. Muitos empresários conhecem este momento como os períodos de alta e baixa estação, ou ainda como a sazonalidade no turismo. Qualquer crise internacional é motivo de preocupação e apreensão, por se tratar de momentos onde a atividade esta sujeita a solavancos que podem desestabilizar destinações e, até mesmo, promover o fechamento de alguns estabelecimentos que sobrevivem diretamente do turismo, como a hotelaria.

A sazonalidade pode ser definida, de acordo com SOUZA (2000: 132) como a “época de temporada ou de alta estação mais aprazível do ano”. No dicionário Brasileiro Globo (1996) sazonar significa “amadurecer, temperar, atingir o estado de perfeição”. Assim, a sazonalidade é o momento considerado ideal para o consumo do produto turístico, desfrutando de toda comodidade de serviços que o mesmo oferece. No meio acadêmico, o efeito da sazonalidade é comumente compreendido como o período que se revessa entre a baixa e a alta estação. Consiste nos períodos de maior e menor demanda turística por determinados produtos.

A diversidade de elementos que compõem os estudos referentes a sazonalidade podem ser explicados por modelos e sistemas de pesquisa econômica. Utilizando os estudos propostos por VICECONTI (2000: 45), o fenômeno da sazonalidade pode ser explicado pelo conceito de elasticidade da demanda, onde as variações de preço de um determinado produto podem levar o consumidor a trocar este último por outro equivalente que seja mais barato, dependendo ainda de uma série de fatores que são definidos pela área da econometria.

PETROCCHI (2001: 154) afirma que o conceito de ação gravitacional faz referência a este estudo para a pesquisa dos aspectos da sazonalidade turística, na medida em que aumentando “as distâncias, há uma tendência de diminuição dos fluxos de turismo potenciais”.

É entre esse movimento de alta e baixa estação que muitos produtos turísticos são criados, na tentativa de se estabelecer no mercado. Em sua maioria, os empresários procuram abrir seus produtos em períodos de fim de baixa e início de alta estação, como forma de absorver a demanda gerada pelo princípio do consumo do lazer e das viagens de início de férias.

Muitas regiões que são, ou já foram, grandes destinos turísticos consolidados sofreram com a sazonalidade do turismo. Como exemplo podemos citar a cidade de Acapulco. A partir de grandes investimentos na infra-estrutura da cidade, Acapulco tornou-se o grande point do turismo internacional, atraindo milhares de visitantes o ano todo. Os agentes econômicos do turismo como hotéis, pousadas, bares e restaurantes cresceram consideravelmente na cidade, possibilitando que o turismo crescesse junto, na medida em que era necessário se investir para ampliar a capacidade de absorção do mercado.

Devido a graves problemas de poluição e a falta de investimentos em novos produtos, Acapulco declinou como destinação turística, a ponto de perder completamente a maior parte da demanda existente. Naquele momento a demanda foi redirecionada para outras destinações mais aprazíveis e que ofereciam melhores produtos. O efeito da sazonalidade fez-se nítido na cidade tendo em vista que agentes degradantes do meio ambiente condicionaram a redução do consumo do espaço turístico, levando os demandantes para outras localidades, enfraquecendo o produto turístico de Acapulco e tornando a atividade na região completamente inviável.

Existem várias formas pelas quais a sazonalidade se manifesta no turismo. Outro exemplo que, diferentemente do anterior, apresenta-se sob outras nuances é o da Cidade do Cabo (TAYLER, 2001: 193), África do Sul. O fenômeno da sazonalidade nesta localidade dá-se sob outros aspectos. Um dos maiores atrativos turísticos atualmente na cidade é o Porto de Victoria & Alfred, mas, nem sempre foi assim nem tão pouco foi planejado para tanto.

A construção e posterior expansão do porto deu-se pela intensidade das atividades do comércio local, proveniente de recursos do setor público. Desde 1880 que a crescente demanda pelos serviços portuários possibilitou a expansão do porto para barcos a vapor. Tal crescimento demandou outras áreas ainda mais específicas. Com isso as docas de Victoria e de Alfred (as primeiras construídas) tornaram-se obsoletas e logo foram deixando de ser utilizadas já que novas instalações mais modernas subsidiavam a capacidade requerida para o comércio.

Finalmente quando não estavam mais sendo utilizadas e, na verdade, estavam sendo sub-utilizadas é que surgiu a iniciativa do setor público (novamente) em revitalizar a área, projetando a implantação de outras atividades que possibilitassem a reutilização das docas de Victoria & Alfred. O local passou a se chamar Victoria & Alfred Waterfront Company, onde TAYLER (2001: 199) afirma que “significou a iniciativa do setor público para, mais uma vez, atrair capital para as áreas das docas da Cidade do Cabo”.
Com a revitalização do porto, o turismo na região cresceu de maneira espantosa, possibilitando a utilização de toda área do porto de Victoria & Alfred para a exploração do turismo, corroborando com o sucesso do empreendimento dos administradores públicos.

A maneira como a sazonalidade se deu nessa localidade é diferenciada por que, num determinado local onde o consumo do espaço estava se dando por meio das atividades do porto, logo em seguida torno-se sub-utilizado para depois voltar a ser explorado. O consumo do espaço passou de mercantil para turístico. O espaço, que antes era exclusivo para embarque e desembarque de mercadorias, tornou-se turistificado, viabilizando a revitalização e revalorização da área para fins de exploração econômica do turismo e das demais atividades que se fazem crescer por meio dele como restaurantes, lanchonetes, casas de shows e espetáculos.

Daí se deduz que a sazonalidade das atividades econômicas possibilitaram a reconstrução de áreas depreciadas em locais onde a exploração e o consumo turístico obtiveram sucesso, por causa da variedade de serviços empregados. BRITTON in TAYLER (2001: 202) acrescenta, sob este aspecto, que: “Gestores de regiões urbanas, em aliança com grupos coorporativos, de trabalho e de cidadãos, têm estado ansiosos para posicionar seu território para atrair [um] mix de funções corporativas, de serviços, de lazer e de consumo”.

O turismo na região, ainda sob o enfoque de BRITTON (2001: 205), foi incentivado de tal forma que “construções inteiras foram transformadas em pecas centrais de espetáculo e de exibição urbanos”.
De maneira parecida ocorreu também na região da ponta do Pecém, litoral do Ceará, como bem relata ARAÚJO (2003: 257). A funcionalidade da região (diferentemente da Cidade do Cabo) não recebeu uma série de cuidados para atender ao mercado turístico. Logo, procurou-se aliar, sem sucesso, as atividades industriais geradoras de imensa degradação ambiental com o turismo, o qual prega a preservação e sustentabilidade do meio ambiente. Este é um nítido choque de interesses entre duas atividades ideologicamente opostas, voltadas para uma área da exploração em comum que recebe dois pontos de vista completamente contrários.

Apesar de todo o exposto, os efeitos que são sentidos pela influência da sazonalidade podem ser aproveitados pelos consumidores de diversas formas. Basta apenas que os empresários saibam operar em cada momento da exploração do turismo, de forma a suprir as reduções da demanda no período de baixa e administrar os períodos de alta no sentido de melhorar o atendimento.

A redução dos preços dos pacotes turísticos no período de baixa estação é uma alternativa válida para se combater a sazonalidade. Permitir que o consumidor desfrute de viagens mais baratas e tarifas reduzidas é uma forma de estimular o mercado e manter-se sempre enquadrado nos anseios e desejos dos mercados demandantes. Muitos segmentos consumidores do turismo procuram estes períodos para preparar suas viagens, como é o caso dos turistas de terceira idade, como afirma FROMER (2003), os excursionistas e os trabalhadores assalariados, dentre muitos outros. São atitudes imbuídas com esta expectativa que possibilitam a utilização do turismo o ano todo.

Muitas iniciativas são elaboradas para fomentar o turismo nos períodos de baixa. A mais recente dentre elas foi contemplada no plano de desenvolvimento turístico do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Esta linha de desenvolvimento veio para possibilitar o acesso da população de baixa renda a consumir o turismo.
Na ocasião, a ação elaborada (conhecida como Blue Days – Calendário Nacional de Dias de Baixa Estação) contemplava a democratização do turismo interno. O referido programa tinha em sua justificativa a definição dos efeitos da sazonalidade, onde o mesmo preconizava a promoção de “ações direcionadas para possibilitar que as populações marginalizadas no mercado turístico [...] tenham acesso ao turismo doméstico”. Dentre os objetivos do calendário estavam contemplados: o aumento do fluxo turístico interno, a difusão dos pontos turísticos e o estímulo para aqueles que possam viajar nos períodos de baixa. Ainda acrescenta que “estes programas pressupõem uma articulação com o empreendimento privado e deverão utilizar-se do período de baixa estação para que tenham custos reduzidos e acessíveis”.
Esta é uma atitude e uma iniciativa viável para os dois lados (ofertantes e demandantes) de se fomentar o turismo com vistas a sustentabilidade e ao desenvolvimento do turismo o ano todo.

Bibliografia

ARAÚJO, Ana Maria. O Turismo e a indústria na reestruturação capitalista no Pecém. In: CORIOLANO, Luzia Neide M. T. (org.). O turismo de inclusão e o desenvolvimento local. Fortaleza: Premius, 2003.
CARLOS, Ana Fani. A cidade. São Paulo: Contexto, 2001.
DODSON, B., KILIAN, D. De porto a playground – a revitalização da enseada de Victoria & Alfred, Cidade do Cabo. In: TAYLER, D., GUERRIER, Y., ROBERTSON, M. (orgs.) Gestão de turismo municipal: teoria e prática de planejamento turístico nos centros urbanos. São Paulo: Futura, 2001.
EVANS, Katie. Competição pelo espaço-patrimônio – o conflito entre residentes e turistas do Cairo. In: TAYLER, D., GUERRIER, Y., ROBERTSON, M. (orgs.) Gestão de turismo municipal: teoria e prática de planejamento turístico nos centros urbanos. São Paulo: Futura, 2001.
FROMER, Betty, VIEIRA, Débora D. Turismo e terceira idade. São Paulo: Aleph, 2003.
GOVERNO FEDERAL. Plano Nacional de Turismo. 1996 – 2001.
LEMOS, Amália Inês G. Turismo, modernidade e globalização: São Paulo, Metrópole Mundial. In: RODRIGUES, Adyr B. Turismo e Geografia. Reflexões teóricas e enfoques regionais. São Paulo: HUCITEC, 1996.
PETROCCHI, Mário. Gestão de pólos turísticos. São Paulo: Futura, 2001.
RODRIGUES, Adyr B. Turismo e geografia: reflexões teóricas e enfoques regionais. São Paulo: HUCITEC, 1996.
SILVA, Sylvio Bandeira de M. Turismo e urbanização. In: RODRIGUES, Adyr B. Turismo, modernidade e globalização. 2ª ed. São Paulo: Hucitec, 1999.
TELES, João A. Interiorização e impactos sócio-econômicos do turismo no Ceará. In: CORIOLANO, Luzia Neide M. T. (org.). O turismo de inclusão e o desenvolvimento local. Fortaleza: Premius, 2003.
VICECONTI, Paulo E., NEVES, Silvério. Introdução à economia. 4a ed. São Paulo: Frase , 2000. Pg 45-88.

Autor:
Bruno Dantas Muniz de Brito
João Pessoa - Universidade Federal da Paraíba.

Voltar