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O Turismo nas Cidades Litorâneas - Ago/05 |
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No limiar do novo século, época em que o mundo passa
por fortes transformações decorrentes do processo de
globalização, o turismo emerge como fenômeno capaz de
gerar profundas mudanças na configuração
espaço-territorial dos lugares onde ele se insere.
Mudanças ocorrem em todas as dimensões: social,
política, cultural, ambiental e, sobretudo econômica,
posto que aflora como um dos principais segmentos
econômicos em nível mundial.
As principais razões responsáveis pelo crescimento das
atividades turísticas são: geração de emprego e renda,
aumento das receitas estaduais e elevação da renda
per-capita. Mais do que nunca o turismo pode ser
designado como uma atividade econômica com grandes
significados. Seus rumos e direções estão orientados
para a obtenção de lucros, geração de riquezas e a
satisfação dos consumidores que alimentam o sistema de
produção/consumo.
Segundo a EMBRATUR (2000), a atividade turística no
Brasil corresponde a 7% do Produto Interno Bruto (PIB)
e já se tornou o terceiro segmento da pauta de
exportações do país. Movimenta outros 52 setores da
economia gerando um faturamento de US$ 25,8 bilhões,
através das viagens de 45 milhões de brasileiros e 5,3
milhões de turistas estrangeiros que visitam o país,
além de empregar seis milhões de pessoas no Brasil.
Por vezes, vislumbra-se no turismo uma alternativa
para alimentar o desenvolvimento econômico de lugares
que viram suas economias estagnarem. Neste afã em
fazer do turismo uma opção de “salvação” da economia,
apressa-se um processo de mudanças nem sempre desejado
em termos de sustentabilidade ambiental. Com isto,
desmistifica-se também a noção do turismo como
“indústria sem chaminés”, isto é, que não degrada o
meio ambiente.
No presente trabalho focaliza-se o papel do turismo
como agente transformador dos espaços, tendo, muitas
vezes, o Estado como a alavanca sustentadora desse
processo. Como referência empírica, utiliza-se o
desenvolvimento do turismo na Bahia a partir dos anos
90, particularmente no Sul do Estado, na chamada
região do cacau, onde a cidade de Ilhéus é o
referencial urbano mais tradicional.
Até o final dos anos 80, a lavoura cacaueira se
constituía a base da economia regional. A primeira
atividade econômica da região foi à extração do
pau-brasil, seguida da cana-de-açúcar. Com a
decadência da monocultura da cana-de-açúcar,
iniciou-se o plantio do cacau. As condições de solo e
clima foram determinantes no cultivo da lavoura
cacaueira, cujas plantações foram se estendendo a tal
ponto que, já nos fins do século XIX, constituíam-se
no motor de engrenagem da econômica do sul baiano
(BRITO, 2000, p. 52).
Segundo Lima (1998), o cultivo do cacau contribuiu
para o processo de urbanização da cidade, pois, toda
uma infra-estrutura urbana foi montada para atender
aos interesses dos fazendeiros e exportadores do cacau
- a construção da ferrovia Itabuna/Ilhéus e a
ampliação do Porto e das rodovias vicinais. A cultura
do cacau foi rapidamente absorvida pelo mercado
externo, tornando-se a base da economia regional.
No entanto, um desequilíbrio no sistema cacaueiro e a
queda de preços do produto no mercado externo
provocaram sérios impactos sobre a economia regional
e, segundo Brito (2000, p.41), “o número de empregos
diretos e indiretos sofreu uma rápida redução de 400
mil para apenas 150 mil, gerando tensões sociais no
campo e na cidade em dez anos”.
A crise afetou o principal parque industrial da
região, e o principal parque da indústria de cacau do
mundo, situado em Ilhéus. Em Trevizan e Marques
(2004), retrata-se como várias indústrias que
processavam as amêndoas do cacau ou que
comercializavam a matéria prima, nesse município,
fecharam, provocando desemprego nos setores rural,
urbano e de serviços. Isto levou a região à estagnação
econômica e um rápido empobrecimento da classe media
regional e da classe trabalhadora.
Com o declínio da lavoura cacaueira, o turismo passou
a ser apontado como solução para a estagnação
econômica da região. Desde então, a iniciativa privada
vem apoiando programas voltados para o planejamento e
a exploração do turismo, principalmente, nas regiões
Sul e Extremo Sul do estado da Bahia.
Dentre estes programas, destaca-se o PRODETUR/BA
(Plano de Desenvolvimento Turístico), que abrange
diversos setores, desde infra-estrutura básica,
projetos de qualificação de mão-de-obra, até a
implantação de complexos turísticos. Esse programa
surgiu de uma parceria entre os Governos Estadual e
Federal, coordenado pela Bahiatursa, objetivando o
melhor aproveitamento de suas potencialidades e,
redefinindo o espaço territorial baiano através do
desenvolvimento turístico.
O PRODETUR/BA abriu um novo caminho para o incremento
do turismo regional, através da captação de recursos
privados para ampliação e modernização do parque
hoteleiro existente na Bahia. Segundo a Bahiatursa o
principal objetivo do programa é o desenvolvimento
sustentável das regiões com potencial turístico, ou
seja, melhorar a qualidade de vida da população
regional, através da geração de emprego e renda,
melhoria da qualidade dos serviços urbanos e do meio
ambiente.
No entanto, a prática do turismo demanda
infra-estrutura adequada para atender as exigências
impostas pela lógica do mercado turístico (hotéis,
pausadas, aeroportos, vias de acesso, saneamento
básico), entre outros. Para suprir essa demanda, o
meio ambiente natural funciona como importante
matéria-prima, embora não a única e, conseqüentemente,
sofre alterações em suas características, tais como o
desmonte de dunas e falésias, poluição dos recursos
hídricos, desmatamentos, além da poluição visual e
sonora.
A esses fatores certamente se juntam as intervenções
no cotidiano da comunidade local, o aumento da
criminalidade e a degradação progressiva destes
espaços. De maneira muito rápida, o turismo vem se
consolidando como principal atividade econômica em
várias cidades litorâneas da Bahia. Ilhéus é uma
delas, localizada na região sul do estado (mapa figura
1), com, aproximadamente, 1.712 Km² de área
superficial.
A população do município está estimada em 244 mil
habitantes. Destes, 144 mil compõem a população
urbana, (IBGE, 2000). O potencial natural do município
está nos mais de 80 km de praias com coqueirais
selvagens, além de florestas, estuários, rios, dunas e
manguezais aos quais se soma o vasto potencial
histórico-cultural, por conta do descobrimento e do
período colonial, e por todo um legado da saga do
cacau, internacionalmente divulgado pelos romances de
escritores como Jorge Amado e Adonias Filho.
A cidade de Ilhéus data do século XVI, quando o rei D.
João III criou as Capitanias Hereditárias. Prédios,
Igrejas e casarões que datam dos séculos XVI, XVII e
XVIII representam um misto de simbolismo e poder dos
coronéis na construção da civilização do cacau e
conferem à paisagem urbana rara beleza arquitetônica.
A descoberta de todo esse patrimônio cultural para o
turismo de Ilhéus, entretanto, só veio a ocorrer após
a crise que se abateu sobre a lavoura cacaueira,
dizimada em conseqüência da vassoura-de-bruxa nos anos
90. A crise despertou os agentes imobiliários para a
vocação natural da cidade, impulsionada pela
iniciativa privada, com apoio do Estado.
Desde então, o poder público local tem realizado ações
pontuais no que se refere à implantação de
infra-estrutura básica para o desenvolvimento do
turismo de Ilhéus. Resta saber quais alterações o
desenvolvimento do turismo vem provocando na
configuração espaço-territorial da cidade, e em que
medida o desenvolvimento desse setor compreende a
sustentabilidade do espaço urbano litorâneo?
Ao
Norte, a cidade limita-se com os municípios de
Aurelino Leal e Uruçuca; ao Sul com o município de
Una; ao Sudoeste com Itabuna, Itajuípe e Coaraci; a
Oeste com Itapetinga; e a Leste com o Oceano
Atlântico. A topografia da cidade é bastante
irregular, caracteriza-se por duas grandes feições
geomorfológicas: um conjunto de elevações constituídas
por morros e encostas e a parte baixa formada por uma
planície litorânea, separada do continente pelos rios
Cachoeira, Almada e Fundão.
Os solos do município foram formados sob abundante
precipitação de temperaturas elevadas e estão
enquadrados entre os solos ferruginosos e ferralíticos
das regiões tropicais. Do ponto de vista geológico,
Ilhéus é caracterizada pela ocorrência de terrenos
muito antigos, formados de rochas cristalinas de alto
grau de metamorfismo. A rede hidrográfica é
representada pelas bacias dos rios Cachoeira, Almada e
Santana, além de pequenos cursos d'água que desembocam
diretamente no mar.
O clima de Ilhéus, segundo a classificação Köpen, é
Af, representativo de um clima quente e
permanentemente úmido de floresta. Sua temperatura
média anual é superior a 24ºC. No mês mais frio, a
média é superior a 21ºC, característico de clima
quente. (CRA, 1994, p. 10). Ao norte se localizam as
praias do São Miguel, do São Domingos, Juerana, Barra
Nova, Tulha, Mamoan e Ponta do Ramo. Ao sul estão
localizadas as praias dos Milionários, uma das mais
movimentadas; Curupe, Backdoor, Olivença, Canabrava e
do Acuípe.
O TURISMO COMO PRÁTICA SOCIAL: UM INSTRUMENTO DE
APROPRIAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DO TERRITÓRIO
O turismo tem merecido cada vez mais a atenção dos
estudiosos das ciências sociais e nestas, inclui-se a
geografia, produzindo uma série de reflexões sobre o
caráter global desta atividade. Segundo vários autores
(RODRIGUES, 1997; CARLOS, 1996; LUCHIARI, 2000; LEMOS,
2000; CRUZ, 2000 e URRY 1996), trata-se de um fenômeno
global, com expressões econômicas, políticas, sociais,
culturais e ambientais, que confere a esta atividade
papel importante na produção e consumo do espaço.
No
entanto, apesar de ser considerada uma atividade
moderna, o turismo abriga em seu bojo fenômenos tão
antigos quanto à própria civilização em sua
materialização concreta sobre a superfície da Terra.
França (2003, p.25), ao realizar uma análise do
processo histórico do turismo afirma que foi no século
passado, em pleno desenvolvimento da revolução
industrial e do capitalismo liberal, que COOK, em
1841, aproveitando-se das facilidades provocadas pelo
desenvolvimento dos transportes e comunicações,
relacionou estes a fatores como hospedagem e
alimentação de qualidade, surgindo então a atividade
turística propriamente dita. À medida que evoluiu os
aspecto políticos, econômicos, sócio - culturais e
tecnológicos da sociedade capitalista, evoluiu a
atividade turística, enquanto atividade econômica
ligada a frações da burguesia comercial e financeira.
Chega-se assim, ao chamado turismo organizado,
destinado a um mercado consumidor que se amplia à
proporção que se distribui melhor a renda nas
diferentes sociedades ou países.
Para Ianni (1996), o elemento novo, a partir do final
do século XX, é o processo de mundialização do
capital. Com a crise do modelo fordista os serviços
surgem como reestruturação do capital. O capital
descobre estratégias de beneficiar-se com ele e a
partir dele.
Para se desenvolver, o turismo necessita de pessoas
com poder de consumo e tempo livre; assim submete o
Estado em favor do mercado. O Estado regulamenta as
atividades profissionais por meio de leis trabalhistas
e lança em todo o mundo a oportunidade de que fosse
ofertada ao trabalhador uma melhor utilização de seu
tempo livre. Assim o capital transforma lazer em
mercadoria – uma nova forma de acumulação do capital.
Enquanto atividade econômica, o turismo sempre esteve
ligado ao desenvolvimento do capitalismo. Seus rumos e
direções foram orientados para a obtenção de lucros,
geração de riquezas e satisfação dos consumidores que
alimentam o sistema de produção e de consumo. Nesse
processo, o turismo vai produzir e reproduzir espaços
elitizados para atender as necessidades das classes
que podem comprar o lazer. Assim, o turismo
materializa-se na lógica do capital, uma vez que
transfere valor aos patrimônios natural e cultural dos
lugares.
Nesse contexto, o lugar torna-se meio e produto das
relações de força e poder, produzidos para e pelo
turismo. Meethan (2001) chama a isto como um processo
de modificação e consumo dos espaços, típico do
capitalismo moderno, enquanto Ateljevic e Doorne
(2002) revelam que no discurso de configuração e
re-configuração dos espaços para o turismo, é possível
identificar, uma teia de relações sociais e estrutura
de poder.
Embora Gottdiener (1999, p. 200) entenda que os
espaços posam ser pensados como produtos de
articulações políticas e que as articulações entre
forças políticas e forças ideológicas sejam
importantes na produção dos espaços, freqüentemente,
essas forças não deixam explícitos os interesses de
grupos ligados ao poder, nas entrelinhas do discurso
utilizado na configuração de espaços.
Os espaços turísticos são produzidos pelos agentes de
mercado, sobretudo para atender aos interesses do
capital que para isso foi produzido. Nesse processo de
alcance mundial, o imaginário global se constitui uma
força que leva as pessoas a criarem necessidades,
referenciais segundo um padrão determinado pelas
forças econômicas dominantes.
Para Ferrara (1994, p.49), o imaginário global leva a
uma padronização espacial que cria uma sensação de
igualdade nos ambientes visitados: “esteja onde
estiver, visualmente as referências estéticas são
sempre as mesmas”. Na compreensão de Carlos (1996), o
imaginário global se reflete na artificialização dos
lugares que atendendo à racionalização da atividade
turística, descaracteriza o sentido originário de sua
existência, sendo produzido um outro lugar.
Cidades inteiras se transformam com o objetivo
precípuo de atrair turistas. Esse processo provoca, de
um lado, o sentimento de estranhamento – para os que
vivem nas áreas que num determinado momento se voltam
para atividade turística – e, de outro, transforma
tudo em espetáculo [...]. (1996, p: 26).
Na visão de Donaire (1998), esse processo é tão
abrangente a ponto de transformar alguns lugares em
verdadeiras metáforas da aldeia global. Nesses lugares
veiculam uma ideologia do reconhecível e do discurso
impositivo, estruturando uma tematização que se
apresenta como um resumo do mundo em pacote vendável,
planificados e concebidos integralmente).
A procura pelo natural ou pela sua representação,
mesmo que artificial, torna-se um dos símbolos da
sociedade no final do século XX. Surge aquilo que
Shields (1991 p.63) chama de “espaços-à-margem”,
porque não estão sujeitos ao espaço preexistente,
tampouco mantêm relação com a realidade que os
envolve. O Complexo Turístico Sauípe na Bahia é
exemplo de um espaço produzido artificialmente para
atender as necessidades do mercado turístico.
O poder
público, através de articulações políticas, exerce um
importante papel enquanto propiciador das condições
gerais de reprodução do capital, conforme argumenta
Carlos (1997 p.15). No Brasil os governos, Federal,
Estadual e Municipal com ajuda e apoio do Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID), criaram
vários programas voltados para a ordenação e
planejamento do turismo no país.
Dentre
os programas criados se destacam a EMBRATUR (Decreto
no 55, de 18/11/66), autarquia especial vinculada ao
Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo, com
sede e fórum em Brasília, e jurisdição em todo o
território nacional, tendo por finalidade formular,
coordenar, executar e fazer executar a Política
Nacional do Turismo através de planejamentos e
indicação de obras necessárias (BAHIATURSA, 1992).
No ano
de 1992 foi criado o PNMT - Programa Nacional de
Municipalização do Turismo. Desenvolvido e coordenado
pela EMBRATUR, mediante a adoção da metodologia da
Organização Mundial do Turismo - OMT - adaptada à
realidade brasileira, com o propósito de implementar
um novo modelo de gestão da atividade turística,
simplificado e uniformizado, para os Estados e
Municípios, de maneira integrada, buscando maior
eficiência e eficácia na administração da atividade
turística, de forma participativa.
Segundo
Donaire (1998), “este modelo de turismo inclui a
participação de todos os agentes que intervêm no
processo turístico - os profissionais do turismo, as
comunidades locais, as associações comunitárias e
outros agentes econômicos e políticos”.
Ainda nos anos de 1990 foi criado o Plano Municipal de
Desenvolvimento do Turismo Sustentável, objetivando
conscientizar os municípios sobre o fato de que,
somente possuir atrativos e potencial turístico não
seria suficiente para que o turismo se consolidasse
como atividade econômica. Nesta perspectiva o turismo
veiculava como instrumento de desenvolvimento, ou
seja, geração de empregos e renda, melhoria da
qualidade de vida da população e preservação de seu
patrimônio natural e histórico/cultural.
Foi nesta mesma década que o turismo passou a ser
visto como atividade estratégica para o
desenvolvimento da economia baiana e, a partir de
então, o Estado adotou um planejamento detalhado para
o seu sucesso. Em razão disso, a Secretaria da Cultura
e Turismo ficou com a função de planejar e captar
recursos para financiamentos e investimentos privados,
e a BAHIATURSA passou a exercer um papel operacional,
fornecendo estudos e estatísticas, cursos de
treinamento de mão-de-obra, campanhas de “Marketing”
entre outros.
Mesmo que a crise financeira atingisse diversos
países, o turismo se manteve como uma atividade
resistente frente às adversidades, demonstrando uma
capacidade de adaptabilidade e de rápida recuperação
do cenário econômico. Este contexto gerou a idéia de
redenção econômica, principalmente para os lugares que
passavam por uma estagnação econômica e apresentavam
características que indicavam a possibilidade de onde
a principal atividade econômica tem sido a monocultura
cacaueira que enfrentou, na década de 1990, a pior
crise econômica e social de sua história, devido à
desestabilização de preços do cacau no mercado externo
e desestruturação do setor produtivo, em função de
doenças e do clima, associados à organização social da
produção regional (TREVIZAN, 1999).
Tais fatores contribuíram numa substancial redução das
atividades produtivas no setor rural e urbano, gerando
a desestabilização do setor produtivo regional e,
conseqüentemente, desemprego em todos os setores da
economia local (BRITO, 2000; MACEDO, 2002; PDRS,
1997). Este contexto provocou a busca de alternativas
de desenvolvimento mais compatíveis com as novas
condições socioeconômicas na região. A partir de
então, o turismo passou a ser apontado como uma
solução para estagnação econômica na região.
Os agentes imobiliários, com apoio do poder público,
têm realizado ações na implantação de infra-estrutura
básica para projetos turísticos na cidade (PDRS,
1997). A idéia de desenvolvimento localizado se
fortalecia ideologicamente na perspectiva da
estabilização econômica através do turismo - uma
atividade que se apresenta lucrativa e geradora de
riqueza em escala mundial. No entanto, como toda
atividade econômica centrada nas relações comerciais,
na troca de serviços por moeda, o turismo, para se
territorializar, necessita do meio ambiente natural e
de elementos culturais.
Segundo Luchiari (2000), o desenvolvimento das
atividades turísticas implica na apropriação e consumo
do espaço para a sua reprodução. Sua apropriação
ocorre pela incorporação de componentes adequados e
necessários à exploração da atividade turística. É
exatamente nesse processo que, conforme Rodrigues
(1999), o espaço natural é alterado e valorizado pela
incorporação de equipamentos turísticos necessários à
sua melhor utilização. Ela ainda acrescenta:
Nesse processo um dos limites efetivos é a natureza,
que como um cenário deve ser mantido e preservado para
permitir sua “apropriação” [...], a descoberta de que
a natureza é um limite ao chamado desenvolvimento
capitalista impõe à ciência e à técnica o maior
desafio: superar este limite, criar as possibilidades
de o “infinito invadir o efetivo”.
O
turismo é uma atividade que se manifesta de várias
formas. Ao mesmo tempo em que é bem de produção, é
também um bem de consumo. Enquanto bem de produção, se
beneficia da infra-estrutura básica implantada no
território urbano ou em qualquer outro território que
se vincule à atividade turística. Enquanto bem de
consumo, se beneficia do potencial natural e cultural,
apresentado pelo lugar.
A
articulação e interdependência desses dois processos,
isto é, o da interação entre bem de consumo e o de bem
de produção, é possível, graças à organização dos
sistemas capitalistas através de relações,
dialeticamente construídas pelos agentes que atuam na
produção dos espaços turísticos.
De
acordo com Cruz (2000, p.13), as ações dos agentes que
atuam na produção dos espaços turísticos “abrigam dois
processos distintos e complementares de apropriação e
reprodução de espaços pelo turismo e para o turismo,
que são: a urbanização turística dos lugares e a
urbanização dos lugares para o turismo”.
É
importante deixar claro que o processo de apropriação
e reprodução de espaços pelo turismo e para o turismo
envolve diferentes agentes e diversos processos que
são vivenciados e produzidos com base em relações
socais internas e externas à cidade. Essas relações,
ao se materializarem, produzem transformações no
espaço e se processam na morfologia urbana, gerando
novas configurações espaço-territoriais. Segundo
Lefebvre (1991p. 49),
Talvez devêssemos introduzir aqui uma distinção entre
a cidade, realidade presente, imediata, dado pratico –
sensível, arquitetônico – e por outro lado o urbano,
realidade social composta de relações a serem
concebidas, construídas ou reconstruídas pelo
pensamento. Todavia, [...] A vida urbana, a sociedade
urbana, numa palavra o urbano não podem dispensar uma
base prático-sensível, uma morfologia.
Sendo assim, a cidade e o urbano são indissociáveis,
se definem como a totalidade espaço - territorial
fundamentada no desenvolvimento de relações que
envolvem diferentes agentes num processo continuo e
dialético. Segundo Corrêa (1993, p. 12) "estes agentes
são os proprietários dos meios de produção, [...] os
proprietários fundiários; os promotores imobiliários,
o Estado; e os grupos sociais excluídos".
A ação conjunta desses agentes, num contexto de
inter-relação, de disputas de interesses, de embates,
conflitos e lutas cotidianas possibilitaram a
construção do espaço urbano. Sendo assim, o espaço
urbano é [...] e sempre será um espaço afeiçoado pelo
homem [...] será sempre um espaço produzido. Resultado
de relações dialéticas e ações acumuladas através do
tempo que se materializam historicamente. (GARNIER,
1997, p. 71).
A CULTURA: UM FATOR DE ATRATIVIDADE TURÍSTICA
De acordo com Santos (1994), é importante incluir
nessa análise a influência de fatores culturais. O
componente da informação, dos costumes, dos valores
não pode ser esquecido no processo de produção e
transformação dos espaços.A cultura abrange a
construção de uma racionalidade, na qual os símbolos,
os significados, os valores e as crenças moldam a
percepção de cada indivíduo e se manifesta
materialmente na sua relação com o meio ambiente
natural e construído.
A vida nas cidades, em decorrência da concentração
urbana, da agitação e da poluição, provoca o anseio de
espaço, de natureza e do mar, iniciando o que segundo
Madruga (1992), chama-se litoralização efetiva. Essa
litoralização, fruto do processo de ocupação dos
espaços litorâneos, principalmente em função do
turismo, segundo Luchiari, (1999, p. 116), não só cria
novas funções, recupera antigas práticas e bens
culturais através das atrações turísticas para a
região em que se insere, mas, também, recria espaços e
produz paisagens. Em outras palavras o turismo cria
outra finalidade para o território, a praia deixa de
ser um lugar de trabalho para ser um lugar de lazer e
consumo. Segundo Corbin, (1989), o litoral adquiriu
importância não apenas como meio natural, mas também
como fator econômico e social. Atualmente o litoral é
objeto de pressões: industrial, urbana e turística,
causadas pela ocupação desordenada e degradação do
ambiente.
Os investimentos capitalistas para o desenvolvimento
do turismo nas regiões litorâneas raramente são
acompanhados de um planejamento que vise a gestão
território-ambiental dos espaços. O afluxo de turistas
para o litoral tem provocado uma ocupação desordenada
dos sítios litorâneos, devido a uma ocupação extensiva
do espaço, com implantação de infra-estruturas
viárias, comerciais e de lazer, freqüentemente
avançando para o mar.
Esta situação pode ser constatada em ambientes urbanos
do litoral baiano como, por exemplo, em Ilhéus e Porto
Seguro. A expansão do turismo urbano tem provocado
impactos causados pelo desmatamento de áreas de
manguezal e ocupação da linha da praia, conforme
registros do Centro de Recursos Ambientais da Bahia
(1994).
No caso particular de Ilhéus, a situação dos
manguezais, tanto no litoral norte e sul como também
no centro da cidade, é bastante crítica no que se
refere ao corte, aterro e ocupação desses
ecossistemas. Os aterros têm provocado sérios
impactos, que vão desde alterações nos trechos
adjacentes até inundações nas áreas alagadiças,
provocando a morte de animais e da vegetação não
adaptada a essas condições. Com o aterramento, todo o
equilíbrio ambiental dessa área está sendo afetado,
gerando distúrbios que comprometem a produtividade dos
manguezais e, conseqüentemente, de toda fauna marinha
(CRA, 1994, p.19).
O crescimento das atividades turísticas em todo o
Nordeste é reflexo do processo de valorização dos
litorais tropicais e das políticas públicas de turismo
adotadas para a região, principalmente na década de
1990 (Silva, 1996). Segundo Cruz (2000, p. 9), a
política turística sofre forte intervenção do Estado
no planejamento, legislação e implantação de
infra-estrutura básica para o desenvolvimento da
atividade turística.
É necessário perceber essa relação entre turismo,
poder público e urbanização, uma vez que os espaços
urbanos se constituem como suporte e atrativo para o
turismo (infra-estrutura). Rodrigues (1997) chama a
atenção para a ocupação e a exploração dos espaços
litorâneos em função do turismo.
A
urbanização turística desordenada tem trazido muitos
problemas às comunidades locais, como conflitos
sociais, devidos à questão da posse da terra, mudanças
no padrão de comportamento e a agressão ao meio
ambiente, causando danos ao espaço urbano e à
qualidade de vida das populações locais.
Estudos comprovam (ANJOS, 1996; TULIK, 2001; CRUZ,
2001) que a urbanização turística desordenada tem
provocado profundas alterações no meio ambiente
natural (áreas de mangues, em decorrência das novas
estruturas e equipamentos urbanos implantados nessas
áreas. Segundo Oliveira (2000, p.65), a evolução da
dinâmica sócio-espacial começa a sofrer alterações
significativas, devido às grandes mudanças sociais da
própria comunidade, provocadas por transformações da
conjuntura regional e nacional).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O turismo é um fenômeno de características
espacialmente abrangentes, posto que abarca várias
dimensões: social, política, cultural, ambiental e
econômica. Por esta razão, o turismo associa-se a
sustentabilidade/ insustentabilidade dos espaços onde
se insere. Pode-se considerar neste momento, que a
associação com a sustentabilidade contribuiu de fato
para a expansão das atividades turísticas
principalmente em lugares onde a economia atravessa
períodos de estagnação.
Em
termos concretos, o turismo efetiva-se, com maior
expressão nas cidades litorâneas, já que o litoral
constitui-se num fator de atratividade das atividades
turísticas, não só na Bahia como em todo o Nordeste,
como se quisesse continuar reproduzindo uma antiga
sociedade cujos interesses estivesses voltados para
além do mar. As conseqüências desse crescimento podem
ser percebidas através das transformações na
configuração espaço territorial das cidades.
Os
impactos ambientais estão presentes na degradação dos
manguezais e poluição dos recursos hídricos e das
praias. Soma-se a esse quadro a descaracterização do
patrimônio arquitetônico local. No entanto, vale
ressaltar que a descaracterização da paisagem não é,
pois, resultado da ação de um único agente, é,
sobretudo, resultado de um conjunto de fatores e aí se
inclui o fator cultural que, se materializa na
paisagem urbana.
De modo
geral, muitos são os impactos que afetam os espaços
turísticos e, embora encontrar uma solução para tais
impactos não se constitua objetivo desse estudo,
buscou-se conhecer melhor a relação turismo /espaço
urbano litorâneo na tentativa de analisar esta relação
como parte de um processo continuo e dialético, tão
logo em construção. Não se trata de descartar o
turismo enquanto fonte de desenvolvimento dada à
importância desse fenômeno no setor produtivo.
No
entanto, as reflexões ora apresentadas sinalizam para
o desenvolvimento de ações que envolvam planejamento e
mecanismos eficazes de preservação na gestão
território –ambiental A intenção é contribuir, acima
de tudo, com o debate acerca da relação turismo/
espaço urbano, discussão que se deve refletir em
políticas com ações direcionadas para um turismo
orientado para a real sustentabilidade das cidades
litorâneas.
Autores: Gilsélia Lemos Moreira e Salvador Dal Pozzo
Trevizan
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